Em janeiro de 2021 o Papa Francisco corrigiu uma das mais duradouras incongruências da Igreja Católica. Francisco instituiu os ministérios do acolitado e leitorado para as mulheres. Foram milhares de anos de incompatibilidade do relato dos Evangelhos com a prática litúrgica da Igreja Católica, pois o anúncio da Boa Nova, a primeira proclamação da Ressurreição saiu da boca de uma mulher: Maria, de Magdala, ou a Madalena.
Neste dia 22 de julho, celebra-se a Festa de Santa Maria Madalena, instituída pelo Papa Francisco em 2016, reconhecendo “que é testemunha de Cristo Ressuscitado e anuncia a mensagem da ressurreição do Senhor, como os outros apóstolos. Por isso, é mais apropriado que a celebração litúrgica desta mulher tenha o mesmo grau de festa que as celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral, revelando a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para cada mulher na Igreja”.
Embora Madalena seja descrita nos Evangelhos como umas das proeminentes amigas e discípulas de Jesus, seu apagamento começa no Novo Testamento e se consolida ao longo da história da Igreja. O culto à Madalena torna-se quase clandestino, perpetuado por mulheres que procuram encontrar uma luz, a do Ressuscitado, não percebida pelos grossos e frios muros e paredes que encastelava um clero predominantemente masculino. Fernanda Di Monte, teóloga italiana, em artigo publicado pelo IHU, afirma que Madalena “é capaz de ver a Luz e acolhê-la, ao contrário dos homens que permanecem nas trevas, e é sua capacidade de escuta e de compreensão que a torna uma líder e autoridade espiritual”.
A distorção sobre o papel da mulher veio no cargo de uma religião que se adaptou à ordem política e aos costumes de sua época, que se absteve de estabelecer os ministérios conforme relato evangélico. O padre Marcello Farina, em entrevista publicada pelo IHU, explica: “Madalena vem antes dos discípulos, e não depois. Infelizmente, porém, as mulheres foram expropriadas de um direito radical: isso dependeu da cultura greco-romana da época, que, em grande parte, foi acolhida pelos cristãos e envolvia o fato de as mulheres terem que ficar em casa.”
O cardeal italiano Gianfranco Ravasi defende a tese de que a imagem e história de Madalena foi deturpada pela tradição da Igreja, tirando-a do testemunho da Ressurreição, transitando de caluniada à glorificada. Segundo Ravasi, em artigo publicado pela Revista IHU On-Line, Maria Madalena foi “uma santa em busca de identidade e, depois, suspensa entre dois extremos: carnalmente abaixada a prostituta ou amante, espiritualmente elevada à Sabedoria transfigurada. Felizmente, como vimos, a única pessoa que a chamou pelo nome, Maria, reconhecendo-a e confirmando-a como discípula, foi o próprio Jesus de Nazaré, seu Mestre, o Rabbuni. E é com base naquele encontro pascal, precisamente, que sua presença reaparecerá, a cada ano, na liturgia católica”.
Por isso o gesto de Francisco ao instituir a Festa de Maria Madalena é considerado por teólogos como surpreendente, mas além disto, a define como “apóstola dos apóstolos”. A teóloga italiana Lilia Sebastiani, em entrevista à Revista IHU On-Line, destaca o significado dessa definição: “Para quem conhece um pouco a língua hebraica e o modo como se formam os superlativos, a expressão se enriquece de alguma ressonância posterior: é como se o texto quisesse dizer ‘a maior, entre todos os apóstolos’.”
Para o teólogo José Cristiano Bento dos Santos, Francisco “teve uma leitura sensível e coerente do papel dessa personagem, registrado pelo Evangelho. É uma atitude histórica de reconhecimento da figura de Madalena, não como prostituta, mas como parte integral e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus e protótipo de libertação para os coletivos femininos, que estão dentro e fora da Igreja Católica”.
Novas pesquisas sobre a história de Madalena ganharam corpo com o tempo. É o caso do artigo “The Meaning of ‘Magdalene’: A Review of Literary Evidence” (2021), de Elizabeth Schrader e Joan E. Taylor, em que buscam compreender o significado real do termo Madalena. As autoras trabalham com a hipótese de que “Madalena” não necessariamente refira-se à Magdala, mas à “magnificada”, ou “torre”, de acordo com o aramaico antigo. “Se você diz que ela é de Magdala, elimina a possibilidade de que ‘Madalena’ indique o título de discípula mais proeminente”, disse Schrader.
A reconstrução histórica de Madalena se faz importante para corrigir os desmandos de uma teologia patriarcal e patriarcalista, isso é, feita pelos homens, para o homens. Cabe destacar a mística e o mistério da discípula nos Evangelhos, que por descuidos propositais ou insensibilidades a trataram na cultura popular como uma pecadora, transviada e manipuladora da missão de Cristo. A historiadora Antonella Cattorini Cattaneo explica alguns caminhos metodológicos e axiomáticos para essa releitura: “Problemático, mas não impossível, é rastrear a verdade dessa figura decididamente ambivalente e sujeita ao longo dos séculos a leituras mais masculinas do que femininas. No entanto, precisamente a identidade fugidia da discípula pede – de mulher para as mulheres – a valorização de uma presença feminina na Igreja de hoje. Sem visões preconcebidas e artificiais, e com a força de quem – os Evangelhos testemunham – sabe com tudo de si enfrentar a dor da separação mortal do seu Senhor e esperança na vida ressuscitada.”
A percepção da Festa de Maria Madalena como um novo tempo para as mulheres na sociedade e na Igreja também está presente no livro Maria Maddalena La fine della notte, de Sylvaine Landrivon (2020), sobre o qual o IHU publicou esta resenha. Para Landrivon: “Como parece nos convidar a fazer o Papa Francisco através da nova liturgia reservada a Maria Madalena, talvez tenha chegado a hora tanto de reconhecer melhor o valor desse testemunho feminino, tão próximo da revelação, como de conceder em base a tal fundamento às mulheres outras funções na Igreja.”
O teólogo Luigi Sandri defende que a história de Madalena levada a sério gera uma revolução na Igreja. Citando os estudos da historiadora Ally Kateusz, Sandri ressalta que os retratos das mulheres nas artes antigas indicavam as suas participações em ministérios, como na similaridade das vestes com as do episcopado. “Quaisquer que sejam as consequências dos estudos de Kateusz, é evidente que o “não” às mulheres nos mais altos ministérios eclesiais é minado na raiz precisamente pela “missão” que Jesus confiou a Maria Madalena. Aceitá-la obviamente envolverá mudanças profundas na estrutura da Igreja romana e da ortodoxia. Mas rejeitar, agora, a mudança apenas retarda uma revolução que, mais cedo ou mais tarde, será inevitável“, defende Sandri, em artigo publicado pelo IHU.
fonte do texto:
IHU UNISINO. Maria Madalena: a maior e a primeira entre os apóstolos. [revista eletrônica – site]. 22 jul 2023
Disponível em <https://ihu.unisinos.br/?catid=611316&id=611316:maria-madalena-apostola-dos-apostolos>

